substantivoconcreto

Literatura instantânea do Centro do Rio de Janeiro, no século do não-tempo.

30.6.05

De cinco em cinco metros

São apenas cinco metros e o coração começa a bater tão rápido que dá para escutar o outro lado da rua com meio-fio e tudo. São apenas quatro metros e sinto-me perenemente invadido pelo efeito de sempre, a leitura das vidas que passam na minha frente. São apenas três metros e já vejo os primeiros anos, a infância dolorida e a vontade de querer fazer algo diferente, de não acreditar na madrinha que o criou com salário de funcionária pública dos anos 60 e dizia ser necessário ir para o exército para ser alguém. São apenas dois metros, mas suficientes para gravar seus 30 anos restantes no carbono de minha memória imediata. Uma vida tão simples, com variações mínimas, esculpidas no rosto que vejo passar por mim. São agora apenas alguns centimetros e, desta vez, o olfato me ajuda a lembrar que o dia foi corrido e nem deu para fazer uma higiene civilizada, e logo depois me ajuda a desenhar a sala pequena da kitchnet em Copacabana, com a TV cheia de jornais em cima...são apenas...alguns segundos e o rosto leva a história pelo meio. Todas pelo meio, metades de uma mesma moeda. E como o andar é feito de esquecer, ali vem outra: apenas cinco metros e, mesmo parado, o mundo brinca de revelar vidas alheias, arrolando vítimas e confidentes secretos bem diante dos meus olhos. São meus os olhos?

13.4.05

Quem casa quer Mudar

CAsou-se com a muda querendo fugir de discussão.
Mais tarde, com o olho inchado e a face em chamas,
descobriu que a muda discutia com a mão.

1.12.04

197 palavras para dizer que a vida é rápid...

Abre o olho, morde o peito, dá o primeiro passo, fala a primeira vez, entende quem é a família, quem são os irmãos, os pais e a professora, assiste ao primeiro dia no jardim de infância, ao segundo aprende a ler, no terceiro, a escrever a primeira carta de amor, assim que entra no ginásio, respira fundo porque amanhã é a formatura e o resultado do vestibular, meia hora depois.

Toma o trote, aplica o trote, recebe o zero na prova de filosofia e o dez na monografia final,. Emenda na pós e no estágio, que logo, logo, efetiva sua primeira oportunidade. Recebe e-mail, manda e-mail, recebe e-mail, manda e-mail, e manda o último, aposenta.

Toma o pote, de remédio, aplica o garrote, da injeção, adquire saúde, meia hora depois passa na formatura do neto, que nasceu tem 15 minutos, respira fundo, escreve a primeira carta de amor novamente, faz amor para sempre, reaprende a ver, deseja novamente o jardim, lembra da família, fala em despedida, dá o primeiro passo, morde o dedo, fecha o olho.

E lá fora, ou lá em cima, ou embaixo, ou ao redor, deu tempo pra Deus coçar o dedão do pé.

12.11.04

A mão não segurou

Base dez, um a um, dois de cinco. Um ábaco natural, calculadora de possibilidades e introspecções. As vemos apressadas, ou então entrelaçadas e até mesmo apontadas para o último acontecimento triste do dia. Estão todas à volta de um último pulo. Podemos sentir uma onda morna de solidão, que atrai a todas elas. São mais de 200, agora, inquietas. Não existe motivo que justifique este salto rumo ao abismo maior do próprio fim. A cena é tão triste que é desnecessário testemunhá-la. É melhor prestar atenção nas mãos. Elas que no comum dos dias de vida carregam de tudo por todos os lados, agora estão ali, numa poça de folhas e galhos e no meio 32 anos de decepções. Uma queda de 30 metros, um estalo e o fim.

Cortam-se as pontas, encerrasse o papo, batemos continência ou em quem tentou nos roubar a última batata frita da porção. Conta o dinheiro, vão caminhando e, mais à frente estalam, estouram, apartam, percorrem tensas intimidades pouco conhecidas desde pouca idade (ousadia!) até a mais provecta maturidade (ousadia, novamente!). Apertam-se trocando olhares de confiança, despedem-se voltando a rotina avassaladora.

Fazem sinal e o ônibus pára. Passam de novo pela esquina e está lavada. Elas se juntam e rezam. Uma alma desceu. Uma prece subiu.

1.9.04

Não fique assim.

O tempo passando e vocês aí a pensar que nada mais acontecerá por aqui. Prováveis visitantes, atraídos pelas artimanhas do oráculo, habittués desgostosos, acalmai. Retirei-me estrategicamente a desempenhar outras personas. Já já volto aqui, volto-me à esta casca observadora. É questão de esperar. Observem o mundo por mim, enquanto sou observado por todos, por agora.

27.7.04

Muscular

Estava lá, parado, imaginando-se deglutido por uma boca enorme, toda de metal, cimento e vidro, sendo triturado pela digestão deste imenso organismo feito de uma liga alquímica inalcançável. Recebendo jatos de matéria estranha por todos os lados, pancadas de borrachas oficiais, mordidas de cães, chuva, frio.

Totalmente alheia à sua fome, que era só saudade, à sua saúde, apenas a solidão de poucas doenças, o povo que andava ao seu redor, interpretava o opaco dos olhos bexiguentos como uma simples embriagues. O povo sabe apenas andar, e não interpretar, como bem já sabe quem nega a mesmice das mesmas-coisas-todos-os-dias

Mas ele não se mexia, nem andava, nem interpretava. Por dentro era apenas tensão. Seu  estômago...aliás, estômago seria um pleonasmo muito do orgânico: o que ele tinha era uma enorme traquéia, que virava um ânus terminal. Um tubo digestivo com pernas, enfim. Seu grande tubo digestivo era a própria digestão que ele imaginava o destruir. E doía fino.

A corrida, de beco em beco, uma tentativa de fugir da própria insistência, era marcada por passos indecisos, pela visão nublada e a insistente mania de mostrar uma hérnia exposta, como um triunfo perante a adversidade. Ou será que era a pústula que mostrava seu hospedeiro anêmico? Levantava a camisa, como comemorando mais um gol do placar: ele três, nós, zero

Em seu eterno delírio famélico de dúvidas eternas, deveria ter no máximo 17 anos. Mas parecia que ia morrer para sempre.

21.7.04

Temos meias

 

Verdades, alívios, calor, comunicação. Moram nas esquinas e, por alguns cobres, vem direto para sua cabeça, coração, corpo e voz. Nada tão transcendente como uma observação fortuita de um cartaz órfão de lar, que pareceu, à primeira vista, fora de contexto: Temos meias. Cartão de celular, chocolates e até mesmo revistas nacionais e importadas, também. Temos tudo, menos tempo, este que Deus nati-morto, que nos mostraria que nada muda, apenas circunvoluteia.
 
Temos meias e as mulheres, poder. Temos chocolates e os homens, decaídos, refúgio em prazeres diminutos e diários. Temos cartões de celular e as operadoras, mais valia social. Temos tudo e as esquinas, um ponto de referência. Temos vida e os noticiosos, mortes à prestação.
 
Temos meias verdades e as meias, pernas inteiras. 
 


20.7.04

O gastroquinêmio é o limite.

Joelhos enxergam, mas são míopes. Tateiam no escuro das roupas um caminho seguro rumo a um igual. A tensão crônica do menisco saliente, suspira aliviada no acalanto do calor da rótula alheia. Curvas se repetem, na estrada, sinuosas, testemunhas de encontros fortuitos. Poucas palavras, muito por não dizer. Elas não dão na vista: dão na cara.

15.7.04

Metro e meio quadrado

Pois de redonda basta a vida, neste ciclo interminável, olhando para o chão, perguntando para todos para onde é que vão, os conhecidos já sei, mas as que nunca vi, começo a conhecer com esta pergunta oracular: para onde vais? São repostas cifradas, 13, 2, dentista, sobreloja...que por baixo da superficialidade inicial sempre querem dizer mais. Seria mais honesto se fosse algo do tipo Vou ao 13 porque preciso falar com meu marido, não agüento mais esta situação, sei do caso que ele tem com a secretária, ou Vou ao dentista, mas estou bem. A sobreloja por favor, e me ajude a matar aquela desgraçada que armou esta para minha empresa. Seria melhor que as pessoas soubesses para onde vão. Eu sei para onde não vou quando sair daqui. Não vou por exemplo fechar um grande negócio. Nem tão pouco casar com alguém. Não vou acertar na sena porque não jogo nem deixar meus amigos morrerem porque mando fazer manutenção toda semana. Não ir é minha maneira de estar protegido, não com grades, trincos com correntes, câmeras, interfones e falta de educação, mas com um objetivo certo na cabeça. Meu objetivo de vida: não ir. Veja este jornal da semana passada, Ministros vão a reunião do planalto, Sharon diz que vai recuar, Flamengo vai à semifinal. Onde diabos todos querem ir com tanta fome, com tanta raiva, com tanta desesperança,Sobe?,...por muito menos já se começou uma guerra mundial...13 por favor?...não seria muito mais simples se, refletidos que fossem, pudéssemos estancar o movimento desta Samsara eterna e transcender estes ditames do destino...E o flamengo hein?Vamos para a sobreloja?...reescrevendo nossa maneira de ver o mundo, tornando infinitas as chances de recomeçar...Vamos subir, segura a porta!,...Seguindo com calma e paciência, sempre na mesma direção, fiéis desde o início unicamente à nossa liberdade...Opa este é o meu...tendo na cabeça a certeza de que causa e efeito são faces da mesma moeda e, dependendo do ponto de vista, você pode transformar um em outro...Já chegamos no 13? Tão rápido...usar um como o outro, refazer, reescrever, redirecionar, um interessante ponto de vista...sem dúvida...Desce?...entender que não é preciso ir, e sim deixar, simplesmente, que a vida Seja, nos contanto com um leve sussurro ao pé do ouvido que final e começo chegam do mesmo lugar. Térreo.

14.7.04

Assim se vai.

Espremidos, remidos pelo frio, frente a sua miséria real, loucos pela fome, confabulam qual será seu passado. Se assim, reescrevendo a própria desventura, poderão subsistir mais alguns meses, dias, horas. Contam as pedras portuguesas sob os joelhos, quatro pretas cinco brancas, um resto de bob´s, roem embalagens, são eles invólucro de sobrevida. Estão abaixo da linha do equador, da miséria, da pipa, da central do brasil, do 125 via aterro. Batem, apanham, levam e trazem. Plural, coletivos, únicos, multidões de solidões esparsas.

Descolados, sofridos no calor de ambientes ensurdecedores, frente a sua alegria frugal, loucos pois insones, destroem seu próprio futuro. Se assim, apagando todas as chances de seu berço abastado, poderão superexisitir, superexpostos e fora de foco, obejtiva(o) de lentes quebras, vidros quebrados, fígados estressados, poste logo a frente, o mais inocente.

Foram todos, ao mesmo tempo, registrando no tempo inexistente de uma noite de frio a inutilidade de suas próprias mazelas. Uns com muito, outros com pouco, agora, todos são nada.

12.7.04

Para que título numa hora dessas?

O lixo nunca vai parar de crescer, o sinal vai sempre abrir na sua vez de atravessar, escadas rolantes, esqueça, enguiçam quando você coloca a ponta de seu pé esquerdo sobre elas; ventos, sempre sudoeste, ônibus, sempre aquele que você perde.

E mais à frente, à hora do almoço, contente-se com um lanche rápido, pois o catchup vai estourar em sua roupa. Você encontrará conhecidos, mas eles não te reconhecerão, vai cumprimentar inimigos e estes, levarão para sempre seu rosto na memória.

Ao pegar o primeiro e-mail do dia, ele trará um novo vírus que, faltando cinco minutos para você deixar seu posto de trabalho, fará você perder o documento preparado durante duas semanas.

Aplauda este show, porque quando a luz apagar, ganharás um esfregão e, na água suja da coxia, tentará comemorar o cair do pano.

O pano caiu, mas ninguém aplaudiu. Seu público foi embora e a estréia foi sua última apresentação.

Não compre mais ingressos, não estenda sua miséria, aumentando em mais alguns tostões seu passivo irremediável. Não tome remédios, por falar nisso, eles são doenças líquidas que não te merecem.

Aceite. Entenda. Releve.

Homens de bem, resignai-vos.

9.7.04

É que a água cai.

Senti a chuva, suja. Suor e lágrima, a poluição flutuante de milhões de sonhos perdidos. Não me protegi para interagir melhor pois não me sentia ameaçado. Meio da rua, rosto para cima, evitando olhar os pés. Cada pingo, uma sentença. Como uma rede: ping, informação. Pequenos pensamentos líquidos, cérebros nuvens, raios sinapses.

As ruas, avenidas, poças, lojas em promoção, filas para o almoço, saladas, novos sebos, velhas livrarias, dinheiro que some, dívidas que surgem, trabalho, rotina...tudo o mais: subconsciente.

8.7.04

Quiromania.

Uma cilada, Um amor esquecido, Talvez uma tentativa profissional que não deu certo, A vida é assim menina, Mas tudo parece que acontece comigo, Nada é coincidência, Pois é coincidência não existe, Existe sim, Se existe eu nunca vi, E nós duas aqui?, Acaso, Mas não é a mesma coisa?,Será?, Não sei, Nem eu.


E ficavam assim. Mas o que incomodava era que, na verdade, não dava para saber quem era a cigana de quem. Sentadas atrás de uma banca de jornal, no Lgo da Carioca, ninguém, fora o passado, conseguiria determinar quem era a cliente e quem era a vidente. Ficou no ar a suposição: era um encontro de profissionais, tentando reescrever seus próprios passados, afinando o discurso para não serem pegas de surpresa. Era uma reunião de trabalho, ora essa.

Polonesa, Não, não, Austríaca com ascendência Russa, Será que assim dá mais clima?, AH acho que sim, afinal, porque não ser a Anastácia?, Ah mas isso já era, você teria que ter aí pelo menos uns 90 anos, É verdade, então inglesa, Com essa cara de Paraíba? Irmãs irlandesas que foram capturadas ao nascer e viveram nômades até fugirem da perseguição religiosa e vieram para cá no final da guerra?, Feito, Você então na Pça XV e eu na Rio Branco, Ah não, hoje é meu dia de Rio Branco.


Reescrevendo a própria história vão adivinhando um único futuro: o seu.

Elas, fundamentalmente, não sabem ler as mãos, sabem escrever com os dedos.

5.7.04

Quem espera sempre espera quem espera.

Elas devem chegar à casa do milhão. Não que saibam onde mora o milhão, muito pelo contrário, trabalham em sua maioria para aqueles que não querem saber onde mora a fortuna ou até mesmo a pequena remediação; são pousada momentânea para quem busca abrigo financeiro, estão espalhadas ao redor de avenidas, encimadas por outras, sobre mais algumas. São o monumento à paciência universal, e ainda tem encosto.

Mesmo próximos, seus convivas não imaginam que conversam entre si, trocando informações corriqueiras, ou até mesmo confidenciais sobre a massa muscular que as ocupa. E são muitas por dia: a senhora que não usa roupa de baixo, o Office boy que invariavelmente carrega um cd player no bolso traseiro, a mãe com dois filhos, que colocam os pés sobre o assento, as lágrimas da casa entregue, a raiva do emprego perdido, a indignação do achincalhamento público. A resignação, aguarde seu número senhor, indica o dedo da moça que a sua senha é 618 quando o mostrador não sai do 580.

Até mesmo um chá, com propriedades relaxantes, a sabedoria popular diz poder delas retirar-se. Como no mundo das lendas tudo é sempre mais verdade se contato com exagero, acreditam todos que esperam que o próprio ato em si, é a dose exata desta bebida. Bebem, ainda assim, a própria saliva, esperando eternamente que o vento mude. Esquecendo-se contudo que não são barcos à vela as cadeiras que, invariavelmente, os abriga. São portos, partos, prismas, pistas, pústulas...sua vez senhor....senhor?

1.7.04

Aterrados estamos todos.

Ficam assim, olhando o mar que não mais existe. Aterrados. Ficam ali e aqui e até mesmo nas esquinas mais movimentadas. São de bronze e a maresia levou seu brilho. São de pedra e a erosão levou sua dignidade. São o passado estático, ampulheta sem areia. São índios, pensadores, militares, aviadores, moças mortas, meninos jornaleiros, caravelas, caras, mãos, sílfides, musas, guerreiros. São vivos num tempo próprio e as estátuas somos nós, num movimento inútil.

24.6.04

encoxamento crônico

Nervosas elas percorrem as estradas à procura de atenção corpórea. Atendidas são pitonisas caladas que de soslatio convidam creontes, guerreiros e derrotados em geral a partilhar o mesmo espaço, ao mesmo tempo.

Da improbabilidade física ao congraçamento carnal pulam atentas ao que as rodeia. Não dão na vista. Dão na cara.

Conduções lotadas de terceira intenções rodam por todo lugar.

10.6.04

Porque não cago em estátuas vivas.

Do alto, em outro tempo, a queda seria fatal. Mas hoje vivo em outra perspectiva, numa recusa resignada às leis universais, sobre tudo a da gravidade. Entreguei-me a costumes simples e coletivos, como planar por entre marquises, telhados antigos e semi-destruídos; acompanho a multidão de iguais, que não se comunica comigo, catando lixo, acertando petardos excrementais com precisão instintiva.

Praças, árvores, revoadas...uma rotina tranqüila.

Só uma única coisa não me permito: acertar, com estes mesmos pertados, uma categoria profissional estranhamente comum nos dias de hoje, as estátuas vivas. Seres com pretensão artística que paralisam seu público, com um show de inabilidade pétrea. Alguém já viu uma estátua viva ser cagada de pombo? Nem nunca verá. Desde os mais antigos períodos de nossa história, ao morrerem, reaparecemos como pombos. Isso mesmo, a ironia move o mundo, rapaz.
Pelo menos, agora sei voar.

7.6.04

Land Scape

Foi um negócio injusto tão desequilibrado as partes que o celebraram. Perderam uma parte importante, uma oportunidade, a chace...enfim, entregaram algo de muito significativo; e o credor, momumental, em retribuição, destinou um pequeno metroquadrado para cada um.

Cego na rua sete de setembro, quasímodo sobre skate na passarela em frente ao BNDES (ironia, ironia), músico personagem no metrôcarioca, crianças na rua do senado, vendedores de antiguidade no lavradio. Um defeito para cada um, estrategicamente distribuídos, como numa viacrucis de incapacidades. Quem é o mais incapaz? O que precisa o aquele que não nota e não ajuda? O cego nos mostra que nada vale a pena ver...o paraplégico que andamos à toa por tantas vielas, as crianças, que negamos nosso futuro e até mesmo as antiguidades, são uma dissonância temporal, do que já foi e ainda é.

Se as construções pagam IPTU, esses, vendem sua última esperança em troca da mimetização com o ambiente que os acolhe. Viram paisagens. Tradução perfeita: são landscapes...mas quem foge de quem?

Basta olhar ao seu redor. Mas cuidado para não ficar tonto.

3.6.04

A Invasão do exército dos coques.

Andam por todos os lados, olhando através do chão, imaginando que, ali embaixo esconde-se um segredo só delas, o submundo de decisões empresariais que testemunham, da vida familiar à qual são devotas, à tudo.

São um grande mercado para os fabricantes de embalagens e bolsas de lojas femininas pois, nelas, carregam um kit de subsistência que salva sua saúde e o reduzido salário mensal, que ganham ao atender, encaminhar e assessorar pessoas, clientes, chefes, através de prédios corporativos.

Acordam cedo, mal vêem os filhos/marido. Fecham o portão e espremem-se, porque sofrem?, no trânsito. Espremem-se porque são o suco de suas próprias frustrações. Algumas formadas, outras mal informadas. Todas, de uniforme impecável e coques na cabeça,. Uma procissão diária de coques bem armados com redinhas.

Algumas vendem celulares, outras, atenção. Tem aquelas que estudam para fazer a faculdade de jornalismo, outras para escalar uma montanha através de um casamento fortuito com algum chefe imediato.

É o exército colorido que, apesar de estandartes diferentes, lutam lado a lado. Azuis, vermelhos, cremes, beges, brancos, pretos. Ande por qualquer canto, adentre em várias recepções e você às verá. E a primeira coisa que fará: mostrará quem você faz acreditar que é, seus documentos por favor.

27.5.04

Subsolos

Existe uma cidade por baixo da cidade. Como no Pêndulo de Focault, do Eco, uma rede de galerias e canais, esconde-se sob nossos pés, a circular uma energia manifestada em diferentes matizes. Não sei se move o mundo. Muito menos se pode destruir governos. Mas é de uma variedade surpreendente que nos leva a pensar na máxima: “Tudo o que está em cima, está embaixo igualmente”, só que num andar a menos, é claro.

Este submundo cultural e gastronômico esconde loterias, sexshops, casas de numismática, cafés, importadoras ( sim elas ainda existem vencendo roupas chinesas e máquinas fotográficas usadas) e um sem fim interessantes pontos de encontro da gente diferente que freqüenta os singelos restaurantes a quilo (para onde vai a fumaça da cozinha desses lugares, eu não sei), ou a livraria de arte mais famosa da cidade, a Leonardo Da Vinci.

Sempre que estiver desbravando o quadrilátero principal ( Rio branco, Sta Luzia, Men de Sá, Campo de Santana) cuidado por onde pisa. Um dia você pode estar lá embaixo também.

18.5.04

Travessa do Ouvidor

No mesmo lugar você encontra um Centro de Trabalho com toda infra para suas reuniões, a livraria da Travessa, a Laranjada Americana e, claro, a estátua do Pixinguinha. Fica ali meio espremida no Centro do Centro. Mas dá para abstrair e achar-se em alguma rua, porque não, londrina. Só o calor que não ajuda, remediado imediatamente se entrarmos em uma das lojas oferecidas para curtir um ar-condicionado e tomar um café expresso. Dá para ilustrar uma ou duas horas de um dia de folga de preferência durante a semana, quando camelôs, bibliófilos e advogados neófitos circulam livremente, impunes. Entre ali pela Rua do Ouvidor, vindo da Rio Branco e vire a primeira à direita.

Subterrâneos

Houve uma época em que o Metro não era um vagão de trem. Poucos se lembram e, aqueles que não freqüentam a linha 2, sequer entraram em contato com esta realidade, mas o Metro é como um Trem da Central. Sem o café por R$ 0,30 da Garotinha. Tente se espremer no Estácio enquanto muitos gritam e você mal consegue tirar um livro da pasta sem esbarrar em todos os 5.394.034.349.033.494 de uma composição com destino a Pavuna. Esta coisa do livro, por exemplo, é de uma dificuldade tremenda. Todos reclamam pois as quinas ficam cutucando orelhas, olhos e nucas de um dos 5.394.034.349.033.494 enlatados vivos. Claro, sempre o mais mal-humorado.

Ainda assim, como é de praxe no post Substantivo Concreto, surge uma aura bucólica de estalo: têm os biscoitinhos que você compra por R$ 1,40 e vai comendo junto com o livro que tenta ler. E, claro, os cálegas tudo que voltam da praia justamente quando todo mundo está voltando do trabalho, a pluralidade de tipos e perfis, do terno ao chinelo, do confortavelmente sentados aos largados no chão, de promotoras de vendas a vendedores promovidos etc etc. Uma trilha interminável que segue com seus 5.394.034.349.033.493 esquecidos. Porque era Del Castilho e eu já havia descido.

Logo ali, em vários buracos pelo Centro ou em linhas suspensas pela ZN.

13.5.04

O fim da originalidade


Republicado do carreirasolo

Título meio catastrófico eu sei, ainda mais se tratando do momento lúdico deste Portal Pessoal, o Substantivo Concreto. Mas tem dia que você é naturalmente mais reflexivo que a média das pessoas, fazer o quê.

É que eles sempre estiveram por ali. Seja no Largo da Carioca, no Beco das Sardinhas, na Praça Tiradentes, na (nova) praça do Castelo...até mesmo em Madureira eu já os vi. Ali como índios em frente ao planalto, reivindicando o direto à sua autoralidade. Confesso: tenho um CD dos caras.

Flautas de bambu. Cabelos azeviche (de tanto ler, sempre quis escrever isso...hoje consegui). Olhos mongóis, ou mongólicos para os engraçadinhos de plantão. E, ao vivo, tocavam suas músicas. Temas lindos, indígenas, folclóricos, meio que provocando um êxtase místico naqueles que os cercavam. Sonoridade perfeita, aplausos, chapéu passado. Recolhia-se tudo...e próximo ponto. Gerações inteiras de músicos Bolivianos. Avôs, pais e filhos. E aquele final de tarde com som de meditação. Isso era os anos 90.

Com o tempo, a turma reduziu. Dois, três no máximo. Aparições cada vez mais esporádicas, que reuniam poucas pessoas, na sua maioria officeboys letárgicos que, algumas vezes nem os walkmans retiravam.

Hoje, recebi o que poderia ser o Golpe de Misericórdia. Um dos último remanescentes tocando um flauta que ecoava por todo o Largo da Carioca, ao lado de uma caixa de som, que tocava um CD com músicas mela-cuecas do Kenny G, gravadas pelo mesmo grupo de seus pais. Parodiando a si próprios, através de versões mal acabadas de músicos que não chegam aos pés do que faziam, os ínidios pereceram na selva sem árvores ou ar puro.

Gravaram um CD e roubaram-lhes a alma.

Os cavaleiros que dizem Níquel!

Sempre atentos, de pé, olhos perdidos no horizonte de asfalto enquanto falam um "terra à vista" adaptado ao século que os viu renascer, o XXI. Buscam não as descobertas, mas o anonimato. Não novas terras, mas antigas práticas, roubar e repassar a preço acessível o ouro de seu tempo: o entretenimento instantâneo.

O conhecimento é canhestro, pouco sabe sobre o "coreldráu 11" que negocia como papel velho. Sabe que é para "figuras" ou para "fotos digital", como o "fotoxopi". Se tem estréia na sexta, na quarta-feira já se compra o DVD ( ou vídeo CD) do mesmo filme com modestos R$ 15. Às vezes sem legendas, outras com som inaudível. Todos com capa scaneada e créditos no fundo da caixa. Caixa 2.

Ao redor do shopping Avenida Central, ou por onde o "rapa" os expulsar ou seus ouvidos os identificar entre os gritos de sua tríade: filmes, jogos e programas. Paixão de Cristo a 15 reais. HaryPotter e a câmara secreta, Senhor dos Anéis, Hulk...

Advogam em causa própria pelo direito autoral de sobreviver.

Pa-cá-tum, ca-cá-tum, pu-tum

Antes de tudo o nariz. Depois o cabelo e a pele branca, o corpo franzino as roupas simples. Uma anglo-saxã, francesa, normanda...e seu atabaque, coisas que só o sincretismo brasileiro, sobretudo o carioca, podem acobertar.

Ela esmola os poucos centavos que lhe jogam na bandeja de palha com a foto da entidade espiritual a qual serve e fica em transe, tendo entre as pernas, como que a fecundar sua cara de velho-mundo com o tônus da escravidão tardia de toda uma descendência. É inacreditável, consegue-se escutar do Theatro Municipal, estando a moça no Lgo da Carioca, perto da exaustão do Metrô. Pa-cá-cum-tum.

Manon, a bela.

Mais do que espelhos chanfrados, cores suspeitas nas paredes, neons, o restaurante ao fundo, os pratos simples e deliciosos que você compra por R$ 6,00, a tipologia de seres inacreditáveis, a rede dos cabelos das garçonetes, as mesas de um mármore desconfortável, que cismam em relar seu joelho, a conta feita na hora que agiliza, a localização curiosa ao final de uma rua ultramovimentada em sua outra extremidade e que naquela paragens é pouco mais do que um beco, o contraste que é todos sentados enquanto na calçada com largura de séc XIX gente passa em passarela, elas mesmas, as garçonetes, apontando para você e comentando com o “encarregado”, Olha ele está aqui há 15 minutos e não foi atendido, a facilidade que é decorar os 7 tipos de sanduíches que é efetivamente o que você deve pedir, e nem mais usar o menu da próxima vez, ou seja, a simplicidade que é virar habitué da casa...enfim, mas do que tudo isso, é imaginar que trocando as roupas e o ar e diminuindo em 50% a quantidade de gente envolvida, você poderia estar em 1954 e daria tudo no mesmo. É como se fosse fundada todo dia, esta padaria. Ali na Rua do Ouvidor, em frente à C&A.

Começando agora

Há muito tempo tenho este desvio. Olho e vejo. Interpreto e devaneio. O centro do Rio de Janeiro tem sido, nesse cenário, um palco engraçado, onde nada é exatamente o que parece ser e o tempo, circunavegante, nos enleva e faz dormir, fazendo esquecer que não passa.

É esse o registro: o registro de um tempo que não existe porque nunca houve e de tudo o que deriva dele que veremos aqui. Oscilante entre o íntimo do personagem e o avassalador de pequenos e antigos prédios. Do reflexo da vida contemporânea à reflexão dos momentos de ilusória razão.

Sejam bem-vindos. Tudo é concreto, menos nós.