De cinco em cinco metros
São apenas cinco metros e o coração começa a bater tão rápido que dá para escutar o outro lado da rua com meio-fio e tudo. São apenas quatro metros e sinto-me perenemente invadido pelo efeito de sempre, a leitura das vidas que passam na minha frente. São apenas três metros e já vejo os primeiros anos, a infância dolorida e a vontade de querer fazer algo diferente, de não acreditar na madrinha que o criou com salário de funcionária pública dos anos 60 e dizia ser necessário ir para o exército para ser alguém. São apenas dois metros, mas suficientes para gravar seus 30 anos restantes no carbono de minha memória imediata. Uma vida tão simples, com variações mínimas, esculpidas no rosto que vejo passar por mim. São agora apenas alguns centimetros e, desta vez, o olfato me ajuda a lembrar que o dia foi corrido e nem deu para fazer uma higiene civilizada, e logo depois me ajuda a desenhar a sala pequena da kitchnet em Copacabana, com a TV cheia de jornais em cima...são apenas...alguns segundos e o rosto leva a história pelo meio. Todas pelo meio, metades de uma mesma moeda. E como o andar é feito de esquecer, ali vem outra: apenas cinco metros e, mesmo parado, o mundo brinca de revelar vidas alheias, arrolando vítimas e confidentes secretos bem diante dos meus olhos. São meus os olhos?
